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Causos da Lena: A Tromba D’água

Causos da Lena: A Tromba D’água

Março de 1969 ficará em nossa memória para sempre.

Há 53 anos, portanto, saímos de Poxoréu de ônibus, bem cedinho com destino a Cuiabá onde ficaria até o nascimento de meu primeiro filho. Jurandir ficou em Poxoréu. Iria para Cuiabá semana seguinte.

A minha viagem, entretanto, verdadeira aventura, foi repleta de acontecimentos.

Logo que chegamos à Serra de São Vicente fomos informados de que havia um desabamento no caminho, o qual nos impediria de chegar ao nosso destino.

Imploramos ao motorista que retornasse a Poxoréu mas em hipótese nenhuma ele aceitou nossa proposta.

Disse-nos simplesmente “Só posso retornar se a empresa me autorizar”.

Não avaliando as consequências, nem a situação de risco em que colocaria todos os passageiros daquele ônibus, prosseguimos.

Nem mesmo avançamos trinta quilômetros e estávamos frente a maior tromba d’água que presenciei em toda a minha vida.

Infinidade de carros, caminhões, ônibus parados, sem meios de prosseguir para Cuiabá.

Não me lembro do nome nem do motorista tampouco da maioria dos passageiros.

Sei que estávamos eu, grávida de nove meses, levando duas crianças, Ivana e Juscélia, além de Angelina, minha saudosa empregada. No ônibus estavam também nossa querida amiga Paraguaíta e seu filho Rui.

Desânimo total!

Estávamos com o ônibus lotado.

Permanecemos na Serra durante dois dias seguidos. Que desespero!

Ninguém imaginava uma tragédia tamanha.

Eu trazia comigo um pacote de bolachas maisena e Paraguaíta um queijo de Minas, fresco.

Tivemos que dividir o pouco que tínhamos com todos os passageiros.

Era um trecho da Serra de São Vicente completamente desabitado.

Passamos metade do dia e uma noite ali.

Tomamos água da Serra que o motorista colhia numa lata velha daquelas de cinco litros próprias para querosene cujo cheiro forte ainda impregnava a lata. Não tínhamos opção. Era beber aquilo ou passar sede.

Eu estava grávida de meu filho Rômulo, havia engordado vinte e cinco quilos.

Mal conseguia sentar na poltrona do ônibus.

Passei a noite em claro ouvindo os roncos dos que conseguiram dormir.

Logo ao amanhecer percebemos que a tromba dágua havia cedido e possibilitava a travessia do ônibus.

Grande surpresa, a uns mil metros da travessia tinha uma barraca apinhada de pessoas em busca de um prato de arroz que estava custando na época o “olho da cara”, como costumávamos dizer.

Cinco reais que naquele tempo era muito dinheiro.

Quem tinha dinheiro comeu aquele arroz branco sem nada que pareceu uma das maravilhas do mundo gastronômico.

Tão gostoso! Tão delicioso! Parecia um manjar dos deuses. Nunca esqueci dessa delícia.

Nossa alegria no entanto durou pouco.

Acho que uns vinte quilômetros depois, outra barreira. Desta vez atravessamos a pé. Eu, pesadona, amparada por Angelina de um lado, o motorista de outro lado. Os pés muito inchados, mal conseguia andar.

De repente, olhei para a estrada e vejo o milagre: o jipe da EMATER/MT, de uso meu cunhado Engenheiro Florestal Dr. Abdias Ferreira Coimbra, Extensionista da EMATER em Poxoréu (MT), casado com minha irmã Joana.

Ele e minha irmã Joana também presos no mesmo trecho.

Não tínhamos alternativa nem de prosseguir e nem de retornar.

A enchente havia levado a ponte do rio Aricá. Que pesadelo!

Exausta, sem forças para prosseguir, meu estado total era desastroso.

Os pés não cabiam mais nas sandálias. Suplicava a Deus que mandasse um a luz.

Fêz-se a luz!! Abdias.

Lembrou ele que um primo de Jonas Pinheiro tinha uma fazenda bem próxima ao local onde estávamos.

Levou-nos até lá. Fomos recebidos calorosamente. Não me lembro do nome do primo do Jonas, mas jamais esquecerei de sua generosidade. Fomos acomodados e no jantar delicioso tatu com arroz.

Fomos salvos pelo gongo. Que sabor inesquecível!!

A fome era tanta, tanta, que não consigo qualificar.

No dia seguinte, nosso acolhedor emprestou-nos uma canoa e dois barqueiros.

Ele estava muito preocupado com meu estado de gravidez.

Voltamos para o rio Aricá.

O barqueiro fez todos os preparativos para que entrássemos na canoa.

Eu bastante nervosa, insegura, lágrimas escorrendo no meu rosto pois além de mim estavam duas crianças.

Ambas com seis aninhos e Angelina minha secretária, a situação das mais estressantes, neste exato momento o barqueiro olhou fixo para mim e disse: SEGURE FIRME QUE O BARCO PODE VIRAR.

Que tal, não foi nada fácil chegar a Cuiabá, naqueles idos de 1969.

Cheguei viva, com a força divina e a Vontade de Deus. Meu filho Rômulo nasceu belo e forte e alegrou nossa vida até o dia de sua partida precoce em dezembro de 2007, vítima de trágico acidente. Que Deus o tenha!

Meu cunhado Dr. Abdias também já deixou a todos deste mundo, um legado de amizade, exemplo e companheirismo.

Diante do exposto, vocês ainda, quando passam pela Serra de São Vicente, reclamam às vezes por esperar parados por apenas três horas pela desinterdição da estrada em caso de algum bloqueio por acidentes de carretas ou outras razões?

Lembrem-se:

As pessoas felizes lembram o passado com gratidão, alegram-se com o presente e encaram o futuro sem medo!”

Lena Glória Varanda Ventresqui Guedes, março/2022

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