Um sonho: preservar o pequizeiro, a mangueira, a cuieira, a guavira

Antes de contar o sonho que tive acordado e que me propus contá-lo ao grande amigo, o padre Orionita Ademar José dos Santos, diretor da Escola Técnica de Poxoréu, quero contar algumas historiazinhas.

Eu estudava na Faculdade Salesiana de Lorena, no Estado de São Paulo. Fiz o primeiro ano e quando voltei para cursar o segundo, viajando à noite, o ônibus fez uma para ainda em Mato Grosso do Sul. Entrei no restaurante onde havia uma loja de conveniências. Bisbilhotando os produtos, vi na seção de bebidas, garrafas de licor de Pequi. Eram lindas garrafas enfeitadas com galhos cristalizados e o licor.

O pensamento que me veio, foi levar uma garrafa de licor de pequi para os meus colegas de segundo ano de faculdade, em Lorena. Comprei o licor e me veio uma dificuldade: como oferecer uma única garrafa de licor para 28 colegas de classe? Um sorteio? Não! Pensei num encontro dos colegas para as boas vindas. Nossa turma era especial: havia alunos de todas as partes do Brasil.
Do Amazonas ao Rio Grande do Sul. De Mato Grosso éramos seis. O encontro aconteceu e no final cada um dos presentes tomou um trago do Licor de pequi de mato Grosso. Recebi elogios e agradecimentos pela delicada lembrança. Eu conhecia pequi. Os paulistas e sulistas, não.

Quando cheguei a Poxoréu e fui morar com a Sulene, eram cinco adolescentes (homens) para educar. O que fazer no tempo livre? Resolvi fazer com eles, longas caminhadas nos morros, rios e cerrados do entorno.

Na temporada do pequi saíamos ainda com escuro e íamos apanhar pequi: éramos sempre os primeiros a visitar os pequizeiros e sempre voltávamos carregados. Não tínhamos nenhum receio. O nosso espaço preferido para apanhar pequi eram as terras que hoje pertencem à Escola Agrícola Cidade dos Meninos que é a obra do coração de missionária leiga e italiana Doutora Edviges Dassi.

Percorríamos os dois lados das terras divididas pela estrada estadual MT-260. É estrada que outrora levava os Poxorenses até Cuiabá.

É claro que não deixávamos de fazer uma visita ao magnifico  córrego Areia para refrescarmo-nos e reprogramarmos a volta para casa, sempre carregados de pequi.

Em 2006, quando trabalhei na elaboração do Plano Diretor Participativo de Poxoréu, Lei Nº 1.059 de 10 de outubro daquele ano, e colocamos ali diretrizes como: “Criar programa de preservação de espécies do bioma cerrado, dando destaque às frutíferas e plantas medicinais: dentre estas espécies estão: o PEQUIZEIRO, a MANGABEIRA, a CUIEIRA ( CUITÉ, COITÉ), GUABIROBEIRA OU GUAVIRA, como é chamada em Poxoréu.

AS ESPÉCIES:

 

O PEQUIZEIRO: Se hoje percorrermos os bairros Lagoa Um, Jardim Tropical, Jardim Novo Horizonte, Dom José Selva, Irantinópolis, todos na cidade de Poxoréu e observarmos atentamente vamos perceber que em muitos quintais há um pé de pequi carregadinho de frutos.

Percebemos claramente que toda esta região incluindo as terras ao redor do distrito de Alto Coité é o habitat preferido dos pequizeiros.

Os pequizeiros, no entanto estão sendo dizimados inconsciente e perversamente. Poderá até desaparecer.

O pequi é um produto eminentemente vendável e rentável. Muitas são as pessoas que na época do pequi ganham um dinheiro extra, vendendo este ingrediente tão apreciável na culinária de algumas regiões brasileiras.

Na alta temporada do pequi, na Cidade há vários pontos de venda de pequi e nas ruas dos bairros há sempre alguém vendendo. Até crianças.

Às margens da rodovia MT-130 em frente o distrito de
Alto Coité, há sempre vendedores de pequi. Muitas vezes crianças. Em geral os primeiros pequis vendidos, dizem os vendedores, tem vindo do estado de Goiás.

O João Joaquim, J.J, no dia de Natal convidou-me a mim e a Sulene para irmos a sua fazenda na MT-130 próximo a Rondonópolis. Em lá chegando, pelas 10 horas, ele já havia recolhido mais de quatro sacos cheios de pequi  e dizia que era o combustível do seu carro, na temporada.

E os preços do pequi? Logo no início da temporada, um pacote com aproximadamente 25 caroços, neste ano custava 15 reais. Mas no dia 26 (12), já comprei por 10 reais. Ou seja, um litro de caroços de pequi, no início da temporada valia 3,75 litros de gasolina. Hoje vale 2,5 litros.

 

A FESTA DO PEQU.

Nos primeiros anos deste século houve em Poxoréu, um movimento com o objetivo de se organizar a Festa do Pequi.

No primeiro momento o movimento foi liderado pelas Associações de Moradores de Bairros. A Lena Guedes e a Cida Caburé foram as líderes principais. A primeira festa aconteceu com grande sucesso. A comida de diversos tipos com sabor de pequi foi abundante. Os comensais compareceram em grande número.

Depois houve um entrevero entre as lideranças das associações de moradores de bairros e a Lena Guedes. Houve um cisma, mas a Lena Guedes continuou fazendo a festa. Uma política mal engendrada impediu que a festa tivesse continuidade.

Havia até um concurso para classificar os maiores catadores de pequi. O produto catado era vendido aos organizadores da festa.

 

O POETA JOAQUIM MOREIRA ESCREVEU: PEQUIZEIRO.

Árvore de pequeno porte dos cerrados,

e gigantesca na dimensão de seus frutos,

que, generosos, são dos melhores produtos

dos sertões, bem vistos, mal cobiçados.

Troncos quebráveis são, às vezes, encorpados,

que as ganâncias humanas, como seres brutos,

vão transformando em lenha, com seus usufrutos,

enquanto os danos ficam mais para os copados.

O pequizeiro é bastante generoso

com todo aquele que tem por ele respeito,

dele cuidando, sem usar cruel machado.

 

No centro do cerrado, está ele garboso,

Galhos pesados, sem mostrar qualquer defeito,

já que o chão dele apara o fruto esverdeado.

 

A MANGABAEIRA.

A mangabeira é outra planta do cerrado que está ameaçada de extinção pelo menos nos nossos cerrados (poxorenses).

Ela produz a mangaba, fruto pequeno, doce, comestível ao natural e em compotas, doces, sorvetes, refrigerantes.

A GUABIROBEIRA OU GABIROBAEIRA.

Arbusto brasileiro que produz um fruto (guabiroba ou gabiroba ou ainda guavira em Poxoréu), em forma de globo, de excelente sabor, de polpa amarelada e macia, consumido ao natural, em compotas ou sucos.

Devido a devastação dos nossos cerrados, está em extinção. O plano Diretor participativo de Poxoréu insiste na preservação dessa espécie.

CUIEIRA OU CUITÉ OU COITÉ.

Pequena árvore cujo fruto (cabaça) é usado como vasilha (cuia) e na fabricação de instrumentos musicais como BERIMBAU. Está em extinção. É preciso preservá-la.

O  SONHO:

Em muitas cidades edificadas em regiões do cerrado brasileiro os frutos regionais são explorados como fonte de riqueza. Por que não pensarmos num projeto assim? Pode ser um inteligente, competente e rentável projeto.

Eu tive um sonho, padre Ademar, acordado, como já disse.

Sonhei que a Escola Técnica poderá elaborar e levar em frente um projeto de Plantação de pequizeiros e as outras plantas citadas, nas terras da fazenda da Escola, habitat natural das mesmas.

O projeto deverá incluir a pesquisa de como produzir as mudas e cultivá-las com saúde e produtividade. Depois como comercializá-las in natura ou manufaturadas.

AMIGOS DO PROJETO PEQUIZEIRO.

Uma sugestão para ter algum dinheiro inicial a fim de investir no projeto é criar um grupo de pelo menos cem pessoas que contribuam com dez reais mensais por um período de (um? Dois? Três anos?).

Não é nada para o contribuinte, mas para o projeto seriam doze mil reais por ano. O projeto não seria de uma turma de técnicos agrícolas, mas da Escola. Envolveria engenheiro agrônomo, professores e alunos da área, bem como todo o corpo de trabalhadores e colaboradores.

Os recursos para o projeto não seriam apenas dos amigos, mas também de alguma entidade ou poder público.

É o que eu quero dizer.

Autor: Prof. João de Souza

Pedro “Saia Véia”

Pedro era de Conceição do Araguaia, Estado de Goiás. Chegou a Poxoréu a pé e paupérrimo em 1949. Logo se embrenhou nos garimpos. Desconhecido, sem nenhuma referência, comeu “o pão que o diabo amassou”, para permanecer na labuta. A situação ficou tão crítica que quando a sua pouca roupa que trouxera se deteriorou completamente, para encobrir as suas partes pudendas, teve que apelar para os sacos de estopa.

Com os sacos que muitas vezes eram jogados fora, ele fazia uma espécie de saia que era enrolada na cintura. Desta maneira ia para o trabalho nas catas para quebrar o cascalho, nas catas  ou para lavá-lo à beira do rio. Com a saia também dormia.

Não se incomodou com as chacotas dos companheiros que logo o apelidaram de “PEDRO SAIA VÉIA”. O “Saia Véia” teve sorte no garimpo. Tomou, no entanto, um firme propósito: somente venderia o produto do garimpo, que lhe tocasse, quando tivesse a certeza de que o dinheiro adquirido na venda do diamante ali catado, fosse suficiente para que jamais tivesse que voltar a garimpar. Assim aconteceu.

Por mais de um ano passou “Saia Véia” garimpando, sem nunca ir à cidade, sem vender diamante, deixando a barba e os cabelos crescerem exageradamente, parecendo um eremita, comendo mal dormindo mal, mas firme no propósito, até o dia que resolveu, calculando consciente a fortuna acumulada e vestindo a sua surrada “Saia Véia”, deixar o garimpo e ir até a cidade e tomar outro rumo em sua vida.

Antes de chegar à cidade de Poxoréu, parou na beira do rio, em um lugar deserto. Pediu a um bom companheiro que lhe fizesse um grande favor: fosse à cidade, vendesse para ele algum diamante e lhe comprasse: uma roupa, um par de sapatos, meias, cinto, cueca, sabonete, brilhantina, perfume, pente e lhe trouxesse. Ali esperou ansioso, mas paciente, o companheiro que fiel executou o seu pedido.

Tendo o banho tomado, vestiu a sua roupa nova, calçou os sapatos, passou perfume, a brilhantina nos cabelos e na barba, penteou os cabelos e foi procurar uma barbearia. Cortou os cabelos e fez a barba e aí se tornou o senhor Pedro de Souza Milhomem, mas ninguém o reconheceu. O Pedro “Saia Véia” estava impregnado em sua personalidade. Mas o homem que desejava ser novo continuou sendo o mesmo “Saia Véia”, sem a tendência de outros garimpeiros, em torrar o seu dinheiro ganhado com renúncia total, nos cabarés. Não deu este prazer às mulheres e aos exploradores donos de cabarés.

Após vender os seus diamantes, “Pedro Saia Véia” procurou conhecer a cidade do ponto de vista de negócios. Logo percebeu que ali corria muito dinheiro e muita gente morava em barracos de palha.

Aplicou o seu dinheiro em construção de casas residenciais e de comércio. Construiu 5 casas na Rua Maranhão, 11 casas na Rua Bahia,  2 casas na Rua Rosa Bororo e a sua casa comercial: “A Casa Garimpeira, na esquina da Rua Bahia com a Rua Paraíba”.

Pedro de Souza Milhomem casou-se com a senhorita Anaildes Gomes da Luz e teve os seguintes filhos: Adailton da Luz Milhomem, Jânio da Luz Milhomem e Adelzair da Luz Milhomem. Faleceu em 31 de julho de 1962.

Autor: Prof. João de Souza