Joaquim Torres, o Bunda de Ferro

Joaquim Torres é um mito na história de Poxoréu. Era baiano e veio para Mato Grosso, diretamente para os garimpos do Garças. As notícias da sua presença naquela região surgem devido o seu envolvimento nas guerrilhas lideradas por Morbeck e Carvalhinho. Joaquim Torres lutou do lado de Morbeck. A revolução terminou no ano de 1926.

Em 9 de julho de 1926, o diamante foi encontrado por Maroto Sodré e seus companheiros, no Rio Poxoréu.

Terminada a revolução Morbeck-Carvalhinho, muitos dos garimpeiros que estiveram labutando nos combates, vieram Para Poxoréu, inclusive Carvalhinhos e os seus mais fiéis companheiros.

É possível que Joaquim Torares tenha chegado a Poxoréu no final do ano de 1926 ou 1927. O seu apelido de BUNDA DE FERRO advém do fato de os garimpeiros terem tomado conhecimento de que o mesmo veio da Bahia montado numa égua em pelo.

Trabalhando nos garimpos Joaquim Torres ficou rico e empregou a sua riqueza, na compra de diamantes e na compra de uma grande extensão de terra entre os riço Água emendada e Paraíso.

Joaquim Torres, vivia com dona Guilhermina, mas não teve filhos. Tornou-se um dos homens mais ricos e influentes de Poxoréu. Envolveu-se bastante na sociedade poxorense. Em 1955, por ocasião da fundação do DIAMANTAE CLUBE SOCIEDADE RECREATIVA, foi eleito membro da primeira diretoria, composta por ilustres poxorenses. Era um privilégio.

Ainda me lembro quando menino, no distrito de Paraíso do Leste. Era de tarde aí pelas 13 horas, quando começou a passar uma grande boiada, na ponte sobre o Rio Paraíso. Foram muitas horas para passar a ponte que se balançava com tanto gado em cima. O gado temia e ficava nervoso ao atravessar. Os vaqueiros eram numerosos e gritavam e estalavam agitados os relhos; outro com seu enorme berrante chamava a grande boiada para se acalmar e continuar tranquilamente a viagem, após a passagem da ponte. Mais tarde fiquei sabendo que aquela boiada era do Joaquim Torres, o Bunda de Ferro. Ele a estava levando para vender em São Paulo.

Joaquim Torres não gostava que o chamassem de Bunda de Ferro. Ficava furioso com quem o assim chamasse.

Conta-se que um dia um turco, ingenuamente cumprimentou-o dizendo: “Bom dia seu Joaquim Bunda de Ferro”. Joaquim ficou furioso e respondeu ao turco: “você me respeite seu turco filho de uma puta! Meu nome é Joaquim Torres. Trate-me com respeito ou eu meto-lhe uma bala na cara. O turco amedrontado, retrucou: “calma, calma, seu Joaquim Torres. Eu não quis ofender o amigo. É que eu vejo todo mundo chamando o senhor por esse nome”.

Conta-se também que um dia Joaquim Torres foi a cidade de São Paulo, levando um saco de dinheiro e muitos diamantes. Procurou um hotel. Entrou, sentou-se na recepção e esperou por um bom tempo o atendente. Quando o atendente apareceu, trazia um recado do dono do hotel: “O patrão mandou lhe dizer que o senhor se retire, porque neste hotel não se hospeda negros”.

Joaquim Torres ficou irritado e manda chamar o dono do hotel, pera ter uma conversa com ele. Quando o dono se apresentou, Joaquim Torres lhe diz: “você me mandou dizer que negro não se hospeda em seu hotel, quer vender o estabelecimento”? O dono do hotel respondeu-lhe: “você não tem dinheiro para comprar o meu hotel, custa muito caro”.

Joaquim torres retrucou: “não lhe perguntei quanto custa. Perguntei se quer vender”. E o dono do hotel: “Eu só vendo por tanto …..” e disse  preço , bastante elevado.

Joaquim Torres lhe diz: “é meu! Você quer receber em dinheiro ou em diamantes”?

“Em dinheiro”, respondeu o hoteleiro. “Então vamos para o cartório lavrar as escrituras”, finalizou Joaquim Torres. Em seguida pegou o saco com o dinheiro, colocou-o sobre o balcão e o abriu diante do atônito hoteleiro. Assustado, o dono do hotel foi buscar a escritura do imóvel e seguiram para o cartório. Em seguida Joaquim Bunda de Ferro mandou acrescentar na placa onde estava escrito o nome do hotel: “SÓ PARA NEGROS” e determinou a seu gerente: “não é para atender brancos”.

Passado algum tempo, pouco, quando a raiva já havia passado, Joaquim Torares vendeu o seu hotel: “SÓ PARA NEGROS”.

O LEBRE E O LANÇA PERFUME

Na década de 1970, quando cheguei a Poxoréu, os carnavais eram superanimados. Eram dos mais concorridos de Mato Grosso. No Diamante Clube Sociedade Recreativa eram cinco noites intermináveis e quatro matinês.

Havia desfiles pelas ruas, sobretudo liderados pelo bloco dos “Sem Vergonhas”, formado por homens vestidos de mulheres e acompanhados pelos animados bateristas da Escola de Samba “ESTRELA D’ALVA”, liderada pelos foliões: Luís Alves Tremura, professor Djalma (o Coco) e pelo professor Raul Dorileo.

O lança-perfume era o ingrediente que juntamente com as bebidas alcoólicas dava alma às festividades. Era um entusiasmo que contagiava a todos.

O lança-perfume era livre. Não havia nenhuma restrição, a não ser aos menores. Mas estes não frequentavam o clube, a não ser acompanhados pelos ou por um adulto responsável. Depois vieram as proibições. Mas mesmo diante de tais restrições, o lança-perfume não deixou de ser usado intensa e clandestinamente, naquelas noites de euforia geral.

A polícia não fazia um controle rígido. Não entrava no clube, onde o carnaval acontecia entusiasticamente, nem controlava os foliões na entrada.

 João Nogueira, jovem entusiasmado, vendia produtos trazidos do Paraguai. Era um bom mascate. Entre outros produtos sempre uma boa quantidade de lança-perfume.

Para fornecer o produto em um daqueles carnavais, João Nogueira não conseguiu trazê-lo, para atender os seus fiéis carnavalescos João Nogueira, no entanto não se preocupou. Sabia muito bem aonde ir buscar o precioso líquido gasoso que deixava esfuziantes os carnavalescos e dava o tom da euforia. Conhecia muito bem um atravessador em Rondonópolis.

Na quinta-feira, véspera da sexta-feira de carnaval, João Nogueira convida o LEBRE (Manoel dos Anjos Silva, já falecido) e vai até Rondonópolis em busca de lança-perfume, para animar o carnaval naquele ano.

Estrada de Poxoréu a Rondonópolis ainda não era asfaltada e no mês de fevereiro era uma lama só. Gastava-se até três horas para lá chegar. Naquela quinta-feira, João Nogueira, em Rondonópolis fez algumas comparas, inclusive o precioso elixir que inebriava os foliões, até ao extremo.

À tardezinha, João Nogueira já tendo concluído os seus negócios do dia, resolveu retornar a Poxoréu Passou pela Vila Operária e logo adiante percebeu que havia alguns carros parados, no sentido Poxoréu. Logo concluiu que havia algo estranho. Alguns transeuntes a pé seguiam em direção aos seus sítios levando sacolas nas costas. Alguém mais bem informado avisou ao João Nogueira que a polícia estava fazendo “blits” para impedir a entrada de lança-perfume no carnaval de Poxoréu. João Nogueira se apavorou e pensou: “Se eu voltar para ir a Poxoréu, por Juscimeira, poderei chamar a atenção da polícia e poderei ser preso. Seu seguir viagem também poderei ser preso”. De fato, João Nogueira e o Lebre estavam encrencados: “no mato sem cachorro”, “entre a cruz e a espada”, “se correr o bicho pega. “Se ficar o bicho come”.

Foi aí que surgiu o LEBRE com a sua mente iluminada, com a sua criatividade exuberante, com a sua coragem e temeridade inconsequentes virou-se para o João Nogueira e lhe disse: “eu tenho a solução. Na carroceria da caminhonete há um saco vazio. Vou pegá-lo, pôr o lança-perfume dentro, pôr o saco nas costas e seguir a pé pela estrada. E assim o fez. Tranquilamente arregaçou as calças e faceiramente seguiu a pé pela estrada enlameada. Passou pelos policiais que distraidamente velicavam os carros e os passageiros, não perceberam ou não deram bola ao experto contrabandista de lança-perfume, levando o produto proibido.

João Nogueira seguiu o andar lento da carruagem. Foram inspecionados, ele e o carro. Passou com o mais inocente dos transeuntes. João Nogueira e o Lebre continuaram a viagem tranquilos e eufóricos

Na sexta-feira, no carnaval não faltou o clandestino e proibido lança-perfume, para regar a euforia dos foliões.

O Primeiro Diamante Catado em São Pedro

Hás autores que insistem em informar aos leitores que o primeiro diamante catado no Rio São Pedro (Poxoréu) por João Ayrenas e seus companheiros, foi catado no dia 24 de junho de 1924. Não é verdade. O próprio João Ayrenas é quem conta, numa entrevista concedida ao historiador cuiabano Virgílio Corrêa Filho: “A 24 de junho de 1924, tendo, eu e mais Pedro José (baiano), José Pacífico (goiano), Antônio Diamantino (mato-grossense), a fazenda Firmeza do senhor Antônio Barcellos, a fim de combinarmos uma excursão ao Ribeirão das Pombas, ali, nessa fazenda, encontramos o senhor Rueda, com mis três amigos. A 27 chegamos ao Pombas, que sendo examinado por Pedro José, Francisco Louzada e Felix Abadia, apresentou ricas formas.

No dia seguinte (28)) fomos uma légua abaixo encontrando um córrego, onde Louzada tirou a primeira pedra de diamante. A 29 demos o nome de São Pedro ao mesmo córrego por ser a data desse Santo. A 30 de junho encontramos um outro córrego, que recebeu o nome de córrego dos Sete, dado por mim, pelo fato de ter tirado sete xibios (diamantes pequenos) e por sermos sete companheiros”. (João Ayrenas Teixeira, restabelecendo a verdade, artigo no “Correio do Estado, 18 de abril de 1925).

Portanto, o primeiro diamante encontrado por Francisco Louzada e seus companheiros, no córrego São Pedro (Poxoréu) foi catado no dia 28 de junho de 1924.

Estas informações foram extraídas da Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, vol. nº35, ano 1957.